Tava chovendo pra caralho quando abri os olhos e me deparei com o relógio que marcava dez e meia da manhã.
Porra! Era segunda feira!
Me espreguicei antes de levantar e só então me dei conta da garota que dormia ao meu lado.
Seria uma puta? Eu tinha exagerado no álcool na véspera e nem lembrava como tinha chegado em casa.
Lembro que tinha ido ao boteco do Carcamano jogar caça-níquel e tomar uma cerveja. Por sorte, acabei ganhando uma grana na máquina, então resolvi estender um pouco a noite e acabei ficando bebo lixo, mas graças a Jah não lembrava as merdas que possivelmente havia feito.
A fulana dormia de boca aberta, enrolada no meu lençol encardido que já fazia bem um mês que eu não trocava. Afastei um pouquinho o pano e vi um de seus seios. Era bem rosinha o peito da fuleira e eu acabei não resistindo e me enfiei ali embaixo. Ela tava tão quentinha que eu mesmo apressado pra ir trabalhar não resisti e fiquei de pau duro.
Coloquei ela de barriga pra cima, abri um pouco suas pernas e me enfiei nas entranhas da cretina. No meio do ato ela acordou gemendo e me abraçando, feliz da vida por estar sendo virilmente comida.
Era quase um estupro, mas ela deu o maior valor.
Não tem café da manhã melhor que um belo priquito! – Pensei.
Dei só uma rapidinha mesmo, bengando com força só pra maltratar. A cada estocada ela berrava e me arranhava as costas. Esporrei em cima da barriga dela e fui tomar um banho. Disse a ela que teria que ir embora imediatamente, pois eu tava atrasadíssimo pra ir trabalhar. Ela vestiu a roupa sem nem limpar a gala, e se dirigiu à porta, mas não pôde sair porque eu sempre guardo as chaves quando levo alguma rapariga pra casa. É um reflexo condicionado como dizem, e mesmo bêbado realizo tal procedimento.
Aprendi isso desde o dia em que levei uma quenga e ela me deu um-boa-noite-cinderela e roubou meu rádio relógio.
- Peraí que já vou abrir a porta. – falei e ela se sentou num caixote que me servia de sofá na sala.
Entrei no quarto e verifiquei se ela não havia roubado nada. Vesti minha roupa, peguei minha bicicleta e abri a porta. Tava chuviscando e eu aproveitei o mau tempo pra inaugurar meu casaco novo. Na verdade, uma camisa moletom de manga longa com uma estampa invocada que dizia: “Um dia é da caça, o outro é da pesca”.
- Ei menina, foi um prazer te conhecer! – falei sorrindo enquanto colocava um cigarro na boca.
- Quando a gente se vê de novo? – perguntou simpática.
Respondi “não sei” e subi na bicicleta. Quando fiz pantim de sair ela perguntou meu nome.
- Coiote. - respondi e fui embora.
Mas não rolava pra mim esse negócio de ficar marcando encontro. Caso a gente se esbarrasse e rolasse vontade a gente poderia até se curtir.
Teve um tempo que eu tinha colocado na cabeça de arranjar uma mulher pra me juntar e fazer família. Não podia conhecer qualquer cretina que já tava querendo firmar compromisso.
Na época João do Jogo, amigo meu, me apresentou uma comadre da sua esposa e deu a maior força pra gente ficar junto. “Essa aí é pra casar, meu camarada”, dizia ele. Um tempo depois eu descobrir que ele tava comendo a dita cuja. Eu não tava a fim de confusão e, na real, nem fiquei chateado por ele ter metido a pica nela, mas achei sacanagem ele ficar me incentivando a assumir a fulana sabendo que ela não valia nada.
- Porra, João! Tu é muito escroto, seu galado! Fez aquele arrumado todinho pra eu ficar com a menina e tu comendo ela, pô! – Desabafei.
- Achei que vocês iam se entender, por isso dei o maior apoio! Foi um lance de pai pra filho.
- De pai pra filho da puta, né!? Por que tu não fica com ela então?
- Porra Coiote, eu sou casado...
Desisti de relacionamento desde então.
A fulana a quem me refiro nem vale a pena citar o nome. Embora eu tenha ficado meio frustrado com o rumo que nossa relação de bosta tomou, percebo hoje em dia que, no fim das contas, foi até divertido ter curtido com ela naquele tempo.
O problema não era ela ser uma vadia do caralho, mas sim eu ter agido como um otário e não ter percebido a tempo que ela só servia mesmo pra ser usada como depósito de esperma.
As vezes lamento ter dado a ela a impressão de que sou um babaca que ela conseguiu enganar, mas fazer o que?
Quanto a João do Jogo, permanecemos amigos, afinal de contas, vez por outra ele coloca alguma mulher na minha mão. Felizmente aprendi a não levar a sério quando ele me fala que “essa aí é pra casar.”
Cheguei na oficina quase na hora do almoço. Naquele tempo eu era borracheiro na oficina de De-menor, lá na Ribeira. Ele tinha esse apelido porque tinha mais ou menos um metro e meio e, apesar de já ter lá seus quarenta anos, tinha cara de moleque.
Ele tava meio puto da vida por causa do meu atraso e eu acabei tendo que dizer a verdade.
- Rapaz, acordei hoje de manhã e tinha uma mulher nua dormindo na minha cama. Não agüentei de dei uma trepada matinal...
- Tá bom, tá bom. Não quero saber da tua vida depravada não.
- Ei, mas o bom é que eu já acordei na estiga de pau duro. E isso depois de chibatar a noite todinha.
- Rapaz, vá fazer o seu trabalho e deixe de conversar bosta. – Disse apontando pra uns pneus empilhados na porta de entrada da oficina, nos quais eu teria que fazer remendos e vulcanizações.
- Deixa eu só beber uma agüinha. Essa trepada de hoje foi cansativa. – Falei me dirigindo aos fundos.
- Já disse que não quero saber dessas putarias, rapaz. – Falou ríspido, mas abrandando o tom continuou - Me converti ao evangelho.
- Mentira do carai.
- É sério!
- Por isso que tu tá aí todo puritano, é? Ouvir pecado dos outros lava o cara pro inferno também?
- Rapaz, acho que não. Porque se fosse assim, padre não ouvia confissão dos outros.
- Pois é. – engoli um copo d’água e peguei uma sovela pra começar o serviço, quando De-menor perguntou meio constrangido:
- Ei Coiote, e essa mulher que tu comeu era pelo menos em ordem?
- Rapaz, não era muito derrubada não. Dava pra comer beijando graças a deus.
- Amém.
De-menor passou a semana me enchendo o saco por causa do atraso da segunda-feira. Disse que essa vida mundana e desregrada não leva ninguém a nada, a não ser pro inferno. Que isso, além de suscitar condenação ao “fogo eterno” atrapalha minha vida aqui na terra, blá blá blá.
Convidou-me a conhecer sua igreja e me aconselhou a converter-me também.
Fiquei meio indiferente aquela conversa mole dele, mas quando chegou a sexta-feira ele me disse que não sabia como ia ficar minha situação lá na oficina, já que um irmão da igreja tava desempregado e ele talvez desse minha vaga pro cara.
Lembrei do Poderoso Chefão II, quando Dom Fannuche pede pro dono da mercearia demitir Vito Corleone e empregar seu sobrinho. Vito Corleone é demitido e fica na merda, vendo sua mulher e filhos passarem dificuldades e acaba se envolvendo em pequenos crimes. Termina dando fim em Dom Fannuche e se torna o bandido mais respeitado do bairro.
No meu caso era impossível comprar uma briga semelhante, pois quem reivindicava minha vaga pra seu protegido supostamente era Deus.
Refleti durante alguns minutos e acabei achando uma solução pro problema.
- De-menor. Aceito o convite.
- Que convite?
- De conhecer tua igreja.
- Aleluia.
Não prestei muita atenção ao culto. Na verdade passei boa parte do tempo olhando pra bunda de uma fiel que tava na minha frente.
Notei que era um mulherão, embora estivesse usando uma saia que quase batia nos pés, cabelo longo e liso que chegava ao meio das costas e uma camisa bem composta de manga. Nua devia ser um espetáculo embora eu tivesse quase certeza que ela muito provavelmente não soubesse nem beijar direito, tampouco fuder.
De-menor percebeu que eu tava secando a irmã e me deu uma cutucada:
- Presta atenção na pregação!
A cada pausa que o pastor fazia alguns fieis, entre eles De-menor, gritavam “Aleluia”.
Achei meio engraçado De-menor com a cara retorcida, as mão apontando pro teto, mexendo os lábios e vez por outra gritando. Senti vontade de rir, mas me controlei.
Na hora que o pastor ficou falando aquelas coisas de céu e inferno, perguntando qual dos visitantes iria “aceitar Jesus” eu me senti um pouco pressionado. Quem sabia que eu estava ali pela primeira vez ficava me olhando na expectativa de me ver cair de joelhos nos pés do pastor ou coisa do tipo. Ele falava coisas do tipo, “você que tá nessa vida de prostituição, de drogas”, só desgraça!
Teve um momento que ele mandou todo mundo desejar “a paz do senhor” um para o outro e eu aproveitei pra ir abraçar a irmã que tava na minha frente. Perguntei seu nome e entendi ela dizer “Silas”. Nome inusitado pra uma mulher.
Ela me ignorou como toda mulher decente deve fazer quando um canalha se aproxima. Voltei pro meu canto e fiquei esperando as ovelhas retomarem seus lugares.
- Talvez seja melhor pegar uma garota que não sabe nada de beijo, trepada e boquete, mas que tenha caráter e não seja como essas vagabundas que geralmente pego. - pensei - Afinal, é mais fácil ensinar uma mulher como se portar na cama que converter uma piranha em mulher honesta.
Gostei do fato da senhorita Silas ter me ignorado, pois caso ela tivesse dado mole eu saberia de cara que ela não vale nada.
De-menor voltou pro meu lado e eu apertei sua mão e falei:
- Ei bicho, to indo embora. Segunda a gente conversa sobre a minha demissão.
Ele ficou me olhando com ar curioso, enquanto eu tocava no ombro da senhorita Silas, que prontamente se virou em minha direção. Eu disse “Tchau irmã” e fui embora.
Caminhei até o bar do Carcamano na esperança de encontrar a fulana de segunda-feira, mas foi em vão.
Arrisquei a grana que tinha no caça-níquel, mas acabei perdendo tudo e tive que deixar umas cervejas no prego.
Voltei pra casa de madruga, meio bêbado e sem grana. Não lamentei, no entanto, pois não se pode ganhar sempre e eu sei que na vida, como diz o ditado, um dia é caça e o outro é da pesca.


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