Já falei que no carnaval, a caminho do bloco “vá feliz pro inferno”, dei meu celular pra um mendigo que passava pela rua.
Não queria correr o risco de sentir vontade de ligar pra Jupira e como não havia decorado o número do telefone dela, seria impossível fazer contato mesmo que quisesse.
O que não falei é que o mendigo a quem dei o celular era o Frieira, que vejo todos os dias perambulando pelas ruas quando vou pra oficina.
Na quarta-feira de cinzas não foi diferente. Ao passar pela Tavares de Lira, na Ribeira, avistei Frieira deitado numa calçada, e ele, ao notar minha presença, se levantou e veio atrás de mim.
- Coiote. Coiote. Tenho uns recados pra te dar.
- Recado de quem, Frieira?
- Ligou uma mulher com voz de velha dizendo que é tua mãe e disse que teu pai tá doente.
- Beleza. Vou ligar pra ela.
- E tem esse negócio aqui também ó. – Disse Frieira exibindo o celular com um envelopezinho amarelo na parte superior do visor.
- Deixa eu ver. – Era uma mensagem de Jupira dizendo “Pensei que vc fosse aparecer anteontem no bloco. Foi massa! Bj.”
Caralho, que mensagem escrota! E por qual motivo eu apareceria no bloco? Pra flagrá-la agarrada com aquele piolhento do caralho?
- Vou precisar do celular de volta, Frieira.
- Dá e toma, é?! Não é assim que a banda toca não, malandro! – Disse o mendigo guardando o celular no bolso.
- E pra que porra tu vai querer um celular, Frieira? Tu quer ser minha secretária por acaso?
- Posso te vender...
- ...
- Vinte conto tá bom?
- Só dou dez!
- Quinze!
- Tem troco pra vinte? – disse tirando uma nota. Frieira tirou cinco reais e me deu junto com o celular enquanto pegava os vinte.
Mendigo filho da puta!
Passei numa farmácia e coloquei dez reais de crédito e liguei pra minha mãe. Mas o motivo de ter recuperado o celular não era esse, como é obvio.
Fiquei ansioso o resto do dia, cronometrando as horas pra acabar o expediente.
- Sou um cretino de marca maior – pensei. - Ligo ou não ligo pra Jupira?
Acho que ter ficado sozinho até esse momento da minha vida não foi por causa de minha natureza, mas sim por falta de opção! Afinal, nunca tinha conhecido ninguém que me suportasse até então. Como acreditei que Jupira seria essa pessoa, me senti desproporcionalmente triste com aquela cena do bloco. Mas como não valho nada também, talvez devesse ir atrás dela mais uma vez e, quem sabe, esquecer o acontecido, afinal de contas, não somos nada um do outro e se ela me quiser, também vou querer!
Liguei pra Jupira, mas chamou até cair na caixa postal. Isso é que dá não ter vergonha na cara! Depois do que rolou, invento de ligar e sou ignorado.
Fiquei puto por ali durante uns quinze minutos, quando o telefone tocou. Era ela.
- Alô...
- Oi Coiote. Tudo bem?
- Tudo, e você?
- Vou bem. Você tá com uma voz abatida. Aconteceu alguma coisa?
- Meu pai tá meio doente, mas é normal. Coisa de velho...
- É grave?
- Nada demais... vai sair na hora de sempre hoje?
- Vou sim.
- Posso passar aí?
- Eu adoraria.
Cheguei no trabalho de Jupira e mal entrei na galeria quando vi a porra do rastafári do bloco saindo com ela da loja.
Ainda tentei me fazer de doido e dar meia volta, fingir que não tinha visto nada e esquecer aquela história, mas ela me viu e gritou:
- Coiote!
Fui em direção a ela meio confuso e ela me deu um abraço e disse:
- Esse aqui é meu irmão, Caveira.
Relutei em apertar a mão do sujeito, pois fiquei meio desconfiado. Como uma criatura graciosa como Jupira era irmã de um cara como aquele?
- Coiote. Satisfação. – tentei ser gentil sem obter muito êxito. O fato de eu ser meio burro faz com que eu desconfie das pessoas além do necessário. Mas olhando direitinho, até que eles eram um pouco parecidos.
Trocamos alguns cumprimentos e ele foi embora.
Fomos, Jupira e eu, pro lugar de sempre e fiquei me sentido um idiota por ter pensado mal dela. Sempre tive dificuldade em estabelecer um relacionamento, porque desde o início quero que tudo seja muito certinho, perfeitinho e isso é foda! Sou rancoroso e piegas como Julien Sorel. Me decepciono facilmente com tudo, mas nesse caso, pelo engano ter sido culpa exclusiva minha, achei que não daria certo, pois Jupira merecia um cara melhor que eu. O que um cara que nem eu, semi-analfabeto, poderia oferecer a ela, que até faculdade tinha feito?
Conversamos trivialidades e ela, na certa percebendo que eu não tava nos meus melhores dias, abreviou sua permanência e se foi.
Fiquei por ali fazendo hora e pensei comigo mesmo:
- É, Coiote. Você tá mais pra cachorro!
Estava irremediavelmente a fim dela, mas decidi que dessa vez aguardaria ela fazer contato.
O clima de carnaval ainda remanescia nas ruas e não sei por qual motivo achei tudo aquilo meio deprimente.
Pedi a conta do café e só então notei que estava completamente sem dinheiro. Se não tivesse que comprar meu celular de volta pela manhã ainda teria alguma grana. Complicado foi explicar isso à moça do café e convencê-la que no outro dia eu voltaria pra pagar.
Pelo menos teria mais um motivo para ver Jupira.
Mendigo filho da puta é o Frieira!
Não queria correr o risco de sentir vontade de ligar pra Jupira e como não havia decorado o número do telefone dela, seria impossível fazer contato mesmo que quisesse.
O que não falei é que o mendigo a quem dei o celular era o Frieira, que vejo todos os dias perambulando pelas ruas quando vou pra oficina.
Na quarta-feira de cinzas não foi diferente. Ao passar pela Tavares de Lira, na Ribeira, avistei Frieira deitado numa calçada, e ele, ao notar minha presença, se levantou e veio atrás de mim.
- Coiote. Coiote. Tenho uns recados pra te dar.
- Recado de quem, Frieira?
- Ligou uma mulher com voz de velha dizendo que é tua mãe e disse que teu pai tá doente.
- Beleza. Vou ligar pra ela.
- E tem esse negócio aqui também ó. – Disse Frieira exibindo o celular com um envelopezinho amarelo na parte superior do visor.
- Deixa eu ver. – Era uma mensagem de Jupira dizendo “Pensei que vc fosse aparecer anteontem no bloco. Foi massa! Bj.”
Caralho, que mensagem escrota! E por qual motivo eu apareceria no bloco? Pra flagrá-la agarrada com aquele piolhento do caralho?
- Vou precisar do celular de volta, Frieira.
- Dá e toma, é?! Não é assim que a banda toca não, malandro! – Disse o mendigo guardando o celular no bolso.
- E pra que porra tu vai querer um celular, Frieira? Tu quer ser minha secretária por acaso?
- Posso te vender...
- ...
- Vinte conto tá bom?
- Só dou dez!
- Quinze!
- Tem troco pra vinte? – disse tirando uma nota. Frieira tirou cinco reais e me deu junto com o celular enquanto pegava os vinte.
Mendigo filho da puta!
Passei numa farmácia e coloquei dez reais de crédito e liguei pra minha mãe. Mas o motivo de ter recuperado o celular não era esse, como é obvio.
Fiquei ansioso o resto do dia, cronometrando as horas pra acabar o expediente.
- Sou um cretino de marca maior – pensei. - Ligo ou não ligo pra Jupira?
Acho que ter ficado sozinho até esse momento da minha vida não foi por causa de minha natureza, mas sim por falta de opção! Afinal, nunca tinha conhecido ninguém que me suportasse até então. Como acreditei que Jupira seria essa pessoa, me senti desproporcionalmente triste com aquela cena do bloco. Mas como não valho nada também, talvez devesse ir atrás dela mais uma vez e, quem sabe, esquecer o acontecido, afinal de contas, não somos nada um do outro e se ela me quiser, também vou querer!
Liguei pra Jupira, mas chamou até cair na caixa postal. Isso é que dá não ter vergonha na cara! Depois do que rolou, invento de ligar e sou ignorado.
Fiquei puto por ali durante uns quinze minutos, quando o telefone tocou. Era ela.
- Alô...
- Oi Coiote. Tudo bem?
- Tudo, e você?
- Vou bem. Você tá com uma voz abatida. Aconteceu alguma coisa?
- Meu pai tá meio doente, mas é normal. Coisa de velho...
- É grave?
- Nada demais... vai sair na hora de sempre hoje?
- Vou sim.
- Posso passar aí?
- Eu adoraria.
Cheguei no trabalho de Jupira e mal entrei na galeria quando vi a porra do rastafári do bloco saindo com ela da loja.
Ainda tentei me fazer de doido e dar meia volta, fingir que não tinha visto nada e esquecer aquela história, mas ela me viu e gritou:
- Coiote!
Fui em direção a ela meio confuso e ela me deu um abraço e disse:
- Esse aqui é meu irmão, Caveira.
Relutei em apertar a mão do sujeito, pois fiquei meio desconfiado. Como uma criatura graciosa como Jupira era irmã de um cara como aquele?
- Coiote. Satisfação. – tentei ser gentil sem obter muito êxito. O fato de eu ser meio burro faz com que eu desconfie das pessoas além do necessário. Mas olhando direitinho, até que eles eram um pouco parecidos.
Trocamos alguns cumprimentos e ele foi embora.
Fomos, Jupira e eu, pro lugar de sempre e fiquei me sentido um idiota por ter pensado mal dela. Sempre tive dificuldade em estabelecer um relacionamento, porque desde o início quero que tudo seja muito certinho, perfeitinho e isso é foda! Sou rancoroso e piegas como Julien Sorel. Me decepciono facilmente com tudo, mas nesse caso, pelo engano ter sido culpa exclusiva minha, achei que não daria certo, pois Jupira merecia um cara melhor que eu. O que um cara que nem eu, semi-analfabeto, poderia oferecer a ela, que até faculdade tinha feito?
Conversamos trivialidades e ela, na certa percebendo que eu não tava nos meus melhores dias, abreviou sua permanência e se foi.
Fiquei por ali fazendo hora e pensei comigo mesmo:
- É, Coiote. Você tá mais pra cachorro!
Estava irremediavelmente a fim dela, mas decidi que dessa vez aguardaria ela fazer contato.
O clima de carnaval ainda remanescia nas ruas e não sei por qual motivo achei tudo aquilo meio deprimente.
Pedi a conta do café e só então notei que estava completamente sem dinheiro. Se não tivesse que comprar meu celular de volta pela manhã ainda teria alguma grana. Complicado foi explicar isso à moça do café e convencê-la que no outro dia eu voltaria pra pagar.
Pelo menos teria mais um motivo para ver Jupira.
Mendigo filho da puta é o Frieira!


0 comentários:
Postar um comentário