11 Março, 2011

"Meu nome é Coiote" ou "A Monalisa de Botero"


Nunca entendi a pressão que meus amigos me faziam pra que adquirisse um telefone celular, e durante anos permaneci, como todos diziam, incomunicável.
Vi uma reportagem certa vez que dizia que o aparelho celular é cancerígeno, e tal fato já é um bom motivo pra não ter um.
Sei que o cigarro também pode provocar câncer, mas pelo menos o uso é prazeroso.
Por muito tempo recebi a alcunha de esquisito, epíteto este que só pela minha recusa aludida não se justifica.
Nunca discordei quando assim era chamado por aqueles mais íntimos que conhecem algumas de minhas manias estranhas, como, por exemplo, ser viciado em vídeos violentos. Devo confessar que este hábito não é um dos mais saudáveis, e me já propiciou algumas situações embaraçosas, como no dia em que fui flagrado em pleno expediente assistindo Faces da Morte no vídeo cassete da oficina onde trabalho.
Mas enfim, um dos principais motivos de resistir em adquirir o aparelho se dá pelo fato de eu odiar falar ao telefone, porém alguns argumentos mais loquazes acabaram por me convencer a ceder, e eu findei indo ao mercado procurar um aparelho adequado.
Perguntei à vendedora se tinha algum aparelho que pegasse fita cassete. Ela riu e eu expliquei que tinha ouvido dizer que os telefones hoje em dia tem várias funções, e me apeteceria bastante comprar um no qual eu pudesse ouvir música.

- Esse aqui tem mp3, baixa vídeos e tudo o mais.

Comprei o aparelho parcelado no cartão mesmo sem saber o que diabo é mp3. Mas devo admitir que a simpatia da vendedora foi fator determinante para tanto.
Quando ela se agachou pra pegar uma sacolinha pra colocar o aparelho, vi seu nome no crachá: Jupira.
Peguei a encomenda e agradeci:

- Obrigado Jupira. Ela sorriu e eu criei coragem de dizer: - Bem, agora que eu tenho um telefone, será que você me acharia atrevido se eu perguntasse o número do teu?
- Não posso te dar agora, mas passa aqui às seis horas pra gente tomar um café...

Disse a ela que viria com certeza, e saí de lá quase correndo, como se minha pressa fosse fazer com que o tempo passasse mais ligeiro. Ao chegar à porta da loja, Jupira me deu um psiu e disse:

- Compre um chip pro telefone!

* * *

Fiquei perambulando pelas imediações intrigado, sem saber o que ela queria dizer com aquela frase estranha... “Compre um chip”, seria alguma gíria?
Retornei na hora combinada e ela sugeriu irmos a um cafezinho ali mesmo na galeria.

- Não posso demorar muito, porque tenho que pegar minha filha... Qual é teu nome mesmo?
- Ganivalson, mas todo mundo só me chama de Coiote.
- Coiote?! Por que?
- Talvez por que sou desnutrido e só ando por aí sozinho, igual o coiote do desenho do papa-léguas, lembra?
- Lembro! – disse ela sorrindo, e após uma pequena pausa continuou: - o pior é que parece mesmo!
- ...
- Desculpa. Você ficou sem graça, desculpa.
- Tá desculpada. – falei me segurando pra não mandá-la tomar no cu.

Tomamos um cafezinho, e o rumo da conversa se tornou mais agradável. Jupira era graciosa quando queimava os lábios com o café quente, afastando imediatamente a xícara e soprando o líquido.
Ela tinha o rostinho redondinho e as mãozinhas pequenas, que lembrava a Monalisa de Botero.
Perguntei o que significava aquilo que ela tinha me dito quando saí da loja horas antes, e ela explicou que o celular só pega se colocar um chip.

- E eu pensando que o bicho tava era quebrado! – Exclamei espontâneo e ela riu.

Olhou pro relógio e disse que precisava ir andando. Pagou seu café, me deu dois beijos no rosto e saiu andando.

- Jupira – gritei – posso te ligar na semana que vem?
- Semana que vem é carnaval. – respondeu e se foi.

* * *

Ao caminhar pra casa comecei a refletir como o fato de não possuir um telefone até então, tinha me dificultado manter relação com certas pessoas.
Sempre fui muito sozinho, mas como algumas pessoas me consideram “um cara legal”, não obstante minhas manias, cheguei a imaginar que, caso facilitasse o contato delas comigo, talvez fosse possível preservar algumas amizades.
Se bem que minha solidão habitual não era de todo desagradável. E um solitário empedernindo que nem eu não poderia receber um apelido mais adequado: Coiote.
Ensina a Wikipédia que tal animal vive sozinho e só se reúne com outros da espécie em situações efêmeras.
Assim também procede este que ora vos escreve.
Não havia imaginado que o fato de comprar um telefone celular pudesse suscitar tanta reflexão e entusiasmo!
Voltei à loja na qual Jupira trabalhava naquela mesma semana pra comprar o tal do chip.
Ela me atendeu com a simpatia habitual e perguntou qual operadora eu preferia.

- Qualquer uma! – respondi.
- O meu é da Oi. – disse ela baixando tom da voz enquanto me dava uma cartelinha com um chip da tal operadora.
- Tomamos um café mais tarde? – perguntei e ela disse que sim. Ainda bem que já tava bem pertinho do fim do expediente, e foi só o tempo de eu colocar o chip e habilitar a linha que deu a hora dela sair.
Fomos pro mesmo lugar da vez anterior, e após a lenga-lenga de praxe – “como vão as coisas?” etc – ela me perguntou o que eu faço da vida.

- Sou empresário. – menti.
- De que setor?
- Pequeno empresário...
- Mas, assim, de que ramo?
- Sou sócio de uma oficina de consertar bicicleta.
- Ah, tá!

Jupira tinha uma filhinha de dois anos, e estava separada – segundo ela – há uns cinco meses, mais ou menos.
Disse que havia cursando três períodos de administração, mas teve que interromper quando a filha nasceu. Assim que teve condições, arranjou aquele emprego na loja, mas pretendia voltar a estudar, pois a porra do comércio não dá muita perspectiva de futuro aos proletas.
Ficamos conversando por mais uma meia hora, quando ela disse que precisava ir embora.
Dessa vez, ao nos despedirmos, ela me beijou nos lábios.
Confesso que quase fiquei de pau duro.

* * *

Lembro que eu já tava quase pegando no sono quando o telefone tocou aquela tarde.

- Coiote, meu camarada! É João do Jogo, beleza? Peguei teu telefone com a rapaziada, e a gente tá marcando de sair naquele bloco de carnaval que sai hoje da Ribeira.
- Qual bloco?
- “Vá feliz pro inferno”. É o primeiro ano que sai. Quem tá organizando é Marcelo Borracheiro e a rapaziada lá da área.
- Rapaz, não é certeza eu aparecer não, porque talvez eu saia com uma garota aí.
- Ah, tá de namorico? Beleza então. Qualquer coisa a gente vai tá por lá.

Liguei pra Jupira e a convidei pra irmos a qualquer lugar no qual fosse possível conversarmos, mas ela disse que tinha se programado pra sair no Bloco dos bacanas. Esse bloco era uma aglomeração de beautiful people do caralho! Universitários, pseudointelectuais e cretinos de toda laia! Nunca me senti muito a vontade nesse tipo de ambiente, mas mesmo assim especulei a possibilidade de aparecer, embora ela não tenha me convidado.
Confesso que eu tava interessado na dita cuja, mas começava a chegar à conclusão que, por algum motivo, não rolava.
Achei que deveria dar uma chance a mim mesmo, tentar estabelecer um relacionamento com a fulana, afinal de contas, ela era uma pessoa agradabilíssima, e eu via nela um protótipo perfeito de esposa, embora tenha me desagradado a resposta que ela me deu no dia que perguntei se ela sabia cozinhar:

- Não sei não. Eu almoço na rua todos os dias e quando chego em casa à noite como um miojo, ou um cachorro quente na rua.

Vesti uma camisa branca de botão, uma bermuda composta – pois sempre achei que mesmo no carnaval não se deve abrir mão do senso do ridículo - e fui sem saber pra qual dos blocos iria.
Ambos sairiam de ruas vizinhas, mas não se cruzariam, haja vista a incompatibilidade dos públicos.
Acabei decidindo, após tomar umas cervejas no caminho, a ir pro Bloco dos bacanas, determinado a perguntar a Jupira qual era a dela na verdade. Se rolava ou não.
Fiquei por ali meio deslocado entre aquelas pessoas, enchendo a cara pra ver se minha vergonha ia embora e eu criava coragem de dançar um frevo.
Tava quente pra caralho, e ainda tinha gente fantasiada com umas roupas caras de manga longa, chapéus, máscaras etc.
Era um pessoal diferente daquele que cruzava a rua em direção ao bloco de meus camaradas: mal-trajados, mal-alimentados, mal-nascidos, embriagando-se com aguardente de quinta categoria, esbanjando alegria e pobreza por onde passava.
Me chame de complexado quem quiser! Sou complexado mesmo. Foda-se! Mas me deu vontade de fazer merda no meio daquela gente só pra bagunçar o bloco, mas o máximo que eu conseguiria seria levar umas tapas e ser expulso. Achei melhor ficar quieto.
Contei o dinheiro que tinha no bolso e vi que ainda dava pra tomar algumas cervejas. Me dirigi ao vendedor, quando avistei Jupira, usando uma peruca verde, cheia de colares coloridos, abraçada com um rastafári fantasiado de Chapolim dançando varre-varre-vassourinha.
Se eu já tava ali na iminência de mandar toda aquela gente desprezível tomar no cu, aquela imagem só aumentou minha raiva.
Nem me dei ao trabalho de ir falar com ela, pois que direito teria eu de reclamar?
Atravessei a rua em direção ao bloco da rapaziada, e no meio do caminho cheguei à conclusão de que a porra do telefone não era algo indispensável para mim, afinal de contas, não existem muitas pessoas no mundo com as quais eu gostaria de manter contato.
Ainda pensei em ligar pra Jupira, mas para não cair em tentação, dei o celular a um mendigo que passava na hora.
Fui me juntar aos meus iguais como vez por outra fazem os coiotes. Quem sabe descolaria alguma mulher pra comer, afinal de contas, era carnaval.

4 comentários:

Caceres disse...

Essas casualidades distoantes... melhor coiote ficar na sua rapeize mermo que se misturar com o biurifu pipou dos bacanas.

Eduardo Vinicius disse...

isso mesmo rapaz, honre a raça dos coiotes! jamais se deixe levar pelo que parece ser mais sensual, porque senão a rapaziada, mais cedo ou mais tarde, acabará combrando de você!

Débora Oliveira disse...

Chorei de rir do lance beautiful people e do excêntrico nome Jupira. Curti visitar o seu espaço.

Mas, a pergunta que não quer calar, que fim levou Jupira?
Hahaha!

Emanuel Grilo disse...

Ah Débora, isso é assunto pra outro post. Em breve Coiote estará por aqui nos relatando o desdobramento dessa sua mais recente tragédia.