Quando comecei a trabalhar com Sandrão voltei a andar armado, mas raramente a arma era necessária.
Não que nunca tenha sacado pra intimidar algum devedor, mas atirar mesmo era algo raro, porque são poucas as pessoas que não mudam de opinião ao se deparar com um argumento tão convincente quanto um trinta e oito apontado pra fuça!
E era assim nossa clientela: o cara pegava dinheiro emprestado e não pagava no dia acertado, lá ia eu cobrar o velhaco. E se ele se metesse a besta, ou quisesse argumentar que tava sem condições de pagar, era só eu puxar meu trêsoitão que o cara mudava de postura instantaneamente. Arranjava de dinheiro até no inferno pra saldar a dívida.
Se não conseguisse de jeito algum, só me restava por opção levar a televisão do cara, em alguns casos uma moto ou coisas do tipo.
Era um trabalho até divertido e eu tinha satisfação em exercer aquela função, pois nunca gostei de gente desonesta e caloteira.
Certa feita, Sandrão me mandou ir cobrar uma grana de um pilantra, dono de uma academia, que já tava inadimplente há mais de uma semana e não atendia ao telefone nem a pau.
Anotei o nome e endereço do cara e saí na cola dele. Cheguei mais ou menos oito da noite, e pude perceber que o cara já tava fechando a academia.
Era um estabelecimento fuleiro improvisado na garagem de uma casa, cheia de equipamentos precários: pesos feito com concreto moldado em lata de leite, máquinas enferrujadas etc.
Esperei ele se preparar pra fechar o cadeado do portão e me aproximei.
- Boa noite, amigo. Vim aqui pegar a encomenda de Sandrão.
Ele se virou em câmera lenta, me olhou com superioridade e contraiu a musculatura do peitoral.
- Não tenho nenhuma encomenda pra ninguém aqui não, ô raquítico! – respondeu desaforado e fez um gesto com a mão como quem enxota um vira-lata: - Vai andando, vai, vai.
- Com certeza você deve ser bom de briga e se confia por ser maior que eu, mas eu vou fazer uma mágica agora que vai me tornar do teu tamanho, duvida? – falei e ele me olhou com ar curioso. Saquei minha arma e apontei pro amontoado de músculos e ele, todo macho, me olhou nos olhos e disse:
- Larga esse merda, moleque, que você não é homem pra atir...
Não deixei ele terminar a frase e dei um tiro no pé esquerdo dele. Pêi! Mira do caralho eu tenho!
Ele se curvou sobre o pé atingido e começou a choramingar. Nem parecia o machão de há pouco.
- Caralho, brother. Eu ia pagar essa porra. Tô com a grana guardada aqui. – e apontou pra dentro da academia.
- O senhor é muito gentil em colaborar. – respondi enquanto gesticulava com o revólver pro lado de dentro e ele entrou junto comigo mancando e sujando o chão todo de sangue.
Ele pegou a grana numa gaveta fechada a chave e me deu. Agradeci a cordialidade e disse que talvez voltasse na semana seguinte pra malhar bíceps.
- Até você me dizer, nunca tinha me dado conta que sou “raquítico”. Falei pra ele.
Guardei a arma e ganhei a rua.
Bombado desaforado do caralho!
* * *
Naquele dia Sandrão me passou o endereço de outro caloteiro e mandou eu ir resolver o problema. Era um tal de Macarrão, enfermeiro que morava lá no bairro e que tinha fama de viado.
Eu tinha que tomar mais cuidado dessa vez, porque a merda com o cara da academia tinha me deixado meio visado, por isso deixei pra ir no meio da noite.
Pulei o muro da casa do cara e esperei durante horas e nada do infeliz aparecer.
Escutei um barulho dentro de casa e arrodeei. Para minha sorte, a porta dos fundos tava aberta.
Saquei meu trinta e oito e entrei silencioso na casa, quando escutei uma tosse insistente dentro do único quarto da casa. Fui andando sorrateiramente e, ao chegar no limiar na porta do aposento, vi uma velha com olhar perdido:
- Wanilton? É você...
Notei que a mulher era cega, e não sei por qual motivo respondi:
- Sou eu sim. Bença, vó.
- Deus te abençoe, meu filho.
Sei que foi escrotagem da minha parte, mas decidi ficar esperando o cara ali mesmo, pois no quintal tinha mosquito pra caralho, além de eu poder comer alguma coisa enquanto aguardava.
Notei um aparelho telefônico em cima de um criado mudo. Me aproximei e verifiquei se estava funcionando. Ao lado tinha uma agendinha com o nome de Wanilton Barbalho e nos dados constava o número do telefone residencial manuscrito após o quesito “Em caso de perda informar:” Arranquei a folha e guardei no bolso.
- Pensei que você tava de plantão hoje. – falou a velha.
- saí mais cedo, vó.
- Vá tomar um banho pra jantar.
Obedeci.
* * *
Acabei pegando no sono e o cara nada de aparecer. Fiquei preocupado com a velha, pois devia ser difícil pra ela se virar ali naquela casa sozinha.
- Traga meu remédio, por favor, filho. Já deve tá na hora.
- Ainda é sete e vinte, vó.
- Já passou vinte minutos da hora.
Levei o remédio e assim que ela tomou fui pra cozinha preparar o café da manhã.
Como não havia resolvido o problema da véspera, decidi ficar por ali esperando o cara até a hora do almoço. Foi quando a senhora falou:
- Você sabe que dia é hoje?
- 19 de março, por quê?
- Nem lembra mais a data do aniversário de sua vó, seu desnaturado!
Fiquei meio desconcertado e respondi:
- Lembro sim, vó. É que eu ia fazer uma surpresa pra senhora...
Já que eu tava envolvido naquela encenação, resolvi fazer o almoço da velha pra que não suscitasse desconfiança, afinal de contas, se ela chamasse a polícia eu tava era fudido, pois teria que fazê-la de refém e quando chegasse na cadeia a rapaziada não me perdoaria: certamente me mandaria pra vala por ter sido violento com uma idosa! Essas coisas a malandragem não perdoa.
Encontrei um frango já temperado na geladeira e preparei para assá-lo ao forno.
Coloquei uma panela de arroz no fogo e nesse ínterim a pobre adormeceu.
Quando tava corando umas verduras, escutei o barulho do portão se abrindo. Corri, peguei minha arma e fiquei de espreita por trás da porta de entrada. Foi quando entrou o tal do Macarrão, todo vestido de branco, segurando uma maletinha.
- Larga a bolsa e coloca a mão na cabeça. – ordenei.
- Mas o que...
- Cala a boca, porra. – falei quase sussurrando – Vó tá dormindo!
Saímos pro terreiro entre a casa e o portão e ele me disse que tava sem grana e que pagaria em breve. Mesmo papo furado de sempre. Disse a ele que a gente ia dar uma volta, que eu ia colocar a arma na cintura e que ele não inventasse de correr, porque a bala é mais ligeira!
Fiquei no dilema se deveria levar algum eletrodoméstico da casa pra compensar a dívida, mas aí seria sacanagem com a pobre da velha, então o jeito era apagar o cara mesmo! Além do que, eu poderia ficar no lugar dele, pois a casa em que ele vivia com a avó era muito melhor que a minha, e quando ela morresse eu seria o único herdeiro.
Enquanto fazia elucubrações sobre o futuro, o filho da puta saiu correndo e gritando por socorro. Não tive outra opção a não ser sacar a arma e atirar. Pêi! Dificilmente erro um tiro. O cara caiu prontinho!
Para minha infelicidade tinha uma viatura da polícia rodando pela área, e os homens de bota preta não tardaram em chegar.
Eu é que não ia ser doido de trocar tiro com a polícia! Me entreguei na hora e fui conduzido à delegacia algemado, depois de levar uma trovoada de cacete!
Nesse mesmo tempo o ITEP recolhia o corpo de Macarrão.
Perguntei ao delegado se era verdade que eu tinha direito a um telefonema e ele confirmou que eu poderia ligar pro meu advogado ou pra família.
Tirei a folha da agenda de Macarrão do bolso e liguei pra casa da velha, que atendeu com voz de sono:
- Alô, vó. Sou eu. Deixei um frango no forno e uma panela de arroz no fogão. Veja se já tá bom e apague, por favor. Aconteceu um problema e eu acho que não vai dar pra eu ir almoçar com a senhora.
- O que houve, meu filho? Nem vi a hora que você saiu de casa.
- Nada demais, vó. Depois explico pra senhora.
- Não vá ficar sem comer até à noite não, viu!
- Pode deixar... Ah, outra coisa... – fiz uma pequena pausa e depois de respirar fundo continuei - feliz aniversário, vovó. – falei sem conseguir conter o choro.



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