30 Janeiro, 2011

Sexto sentido masculino


Naquele tempo eu tava tentando reorganizar minha vida. Tinha saído de uma relação há pouco tempo, e confesso que tava até curtindo um pouco aquela mania, na época recém adquirida, de perambular por aí sozinho.
Por mim não havia problema algum em ser visto sempre desacompanhado, mas alguns de meus amigos se condoíam com aquilo, pois achavam que era muito deprimente para um cara que nem eu aquela situação.
Provavelmente imaginavam que eu estava mendigando uma namorada, mas eu não tava nem aí pra isso.
Como tinha saído de um relacionamento problemático, passei a evitar qualquer envolvimento emocional daí em diante. Como dizem por aí, “gato escaldado tem medo de água fria”.
Podia ser a mulher que fosse que minha intenção nunca passava daquilo: meter pica e pular fora!
Devo confessar também que minha situação financeira não era das melhores, o que dificultava inaugurar qualquer relacionamento consistente, uma vez que o sexo gratuito na maior parte das vezes é mais caro que o pago. Além do que eu não tava com saco pra ficar conversando merda com mulher, fazer aquele joguinho de sedução e coisa e tal. Sempre fui muito desajeitado pra esse tipo de coisa. Talvez pelo fato de não ser um idiota completo, e não conseguir dissimular o desagrado que certas atitudes de algumas mulheres tapadas geralmente me provocam.
Já com as mulheres interessantes eu ficava meio inibido. Era a minha vez de ser o tapado da história.
Para saciar minhas necessidades fisiológicas não havia outra opção que não recorrer à labuta das meretrizes.
O foda é que com a mixaria que eu ganhava, só dava pra ir no puteiro uma vez ao mês na melhor das hipóteses. No resto dos dias o jeito era tocar punheta e ponto final.
Era foda pra mim ver meus amigos de escola todos se dando bem na vida e eu, naquela altura do campeonato, ainda tentando iniciar minha tortuosa carreira de advogado de porta de cadeia, vivendo sozinho num chiqueiro desconfortável, incompreendido por todos e desinteressado em compreender todo mundo.
Bem, já falei que não sou um idiota completo, e talvez seja por isso que algumas pessoas me superestimam às vezes. Devem observar meu jeito de fracassado e imaginar que sou mais burro do que realmente sou. Aí quando percebem que as coisas não são bem assim, passam a ter a impressão inversa, até o momento que descobrem que, na verdade, não passo de um grande bosta!
Talvez tenha sido por isso que Aninha tenha se interessado por mim: tínhamos um amigo em comum, e ele foi fazer propaganda enganosa a meu respeito, e ela, que não era tão fudida quanto eu, mas que passava por um momento emocional semelhante, decidiu me dar uma chance.
Vou abster-me de narrar os pormenores, mas devo dizer que, não sei por qual motivo, senti que aquela figura era diferente das outras.
Digo “não sei por qual motivo”, pois jamais chegamos a conversar de verdade, e sabíamos muito pouco um do outro.
No dia em que ficamos, entre um copo e outro, sucessivos cigarros, e aquela conversa mole de sempre, findamos por fazer o de praxe: sexo.
Nada além de pernas, bundas, peitos, bocas.
Mas não sei que porra aconteceu comigo que acabei ficando com a impressão que, com Aninha, podia ser mais que aquilo somente.
Sei que corro o risco de ser taxado de piegas e ridículo, mas devo dizer que, nos dias que sucederam nosso encontro aludido, passei quase que a totalidade do tempo pensado na dita cuja, algo que não era comum acontecer.
Pensei comigo mesmo embasbacado:

- Bem meu camarada, fudeu! Tu vai ficar a fim dela!

***

Acordei naquele dia, pra variar, pensando em Aninha, e do caminho de casa pro trabalho, ponderei todos os prós e contras em ligar pra ela, e acabei me convencendo de que, caso não arriscasse, ficaria arrependido.
Falam por aí que as mulheres tem um sexto sentido, mas acho que tenho também esse troço aí, pois não havia qualquer motivo pra eu ficar com aquele estado de espírito lamentável. Era algo que beirava ao desejo, misturado com medo, sei lá. Uma coisa escrota.
Meu instinto de auto-preservação tinha ido por água abaixo, e eu, sensível como sou, ia me arriscar num lance que muito provavelmente me deixaria ferido no final.
As pessoas às vezes não entendem caras sensíveis que nem eu. Acham que essa postura de evitar envolvimento sério é por que quero dar uma de escroto, mas não é nada disso. Na verdade isso se dá porque morro de amores se me apego e isso é assaz arriscado. Uma merda pra ser mais claro. Parece até papo de cafajeste, mas é a mais pura verdade. Por isso era melhor evitar, mas naquele caso tava difícil.
Cheguei em frente à porta do escritório e, qual Maiacovski, com o coração pulsando por todo o corpo, peguei a porra do telefone e liguei:

- Aninha? Grilo, tudo bem? Vai fazer o que hoje?

***

Infelizmente ela tava muito ocupada naquela semana, mas gostei da receptividade dela ao telefone.
Não resisti e acabei comentando esse lance com uns amigos, que me aconselharam a investir na garota.
É até meio constrangedor revelar esse tipo de coisa, mas fiquei aguardando ansioso passarem-se dois dias pra poder ligar de novo pra ela.
Nesse ínterim, pensei em enviar flores e noutras babaquices, mas por prudência evitei. Talvez ela fosse se sentir sufocada, achar que eu tava forçando a barra e ia acabar me dando um pé na bunda.
Para não abusar da paciência do leitor, sou lacônico em dizer que nos telefonemas que se seguiram a receptividade não foi a mesma, e eu pensei em pular fora enquanto ainda não tinha rolado envolvimento.
Decidi ligar mais uma vez e notei que ela, meio a contragosto, acabou aceitando se encontrar comigo para ver um filme no cinema.
Sugeri que assistíssemos “O abominável ladrão de calcinhas”, filme que havia angariado muitos elogios da crítica especializada.

- Não gosto de filme brasileiro. – ela disse. Então acabamos combinando de ver um outro filme qualquer que nem lembro o nome.
Cheguei ao shopping no qual havíamos marcado, e me sentei na praça de alimentação num local estratégico, de onde eu poderia vê-la chegando pelo corredor das lojas, o que me daria tempo suficiente de disfarçar a ansiedade.
Aguardei durante algum momento, olhando de dez em dez segundos pro relógio e vi quando ela adentrou o corredor com um indisfarçável ar de ansiedade.
Enquanto caminhava, olhava para os lados meio desconfiada, e eu, deduzindo que ela estava a minha procura, me levantei apoiando na mesa e acenei.

- Aqui, aqui.

Ela me avistou, e sem esboçar qualquer contentamento, veio em minha direção.
Me levantei pra cumprimentá-la, e instintivamente tentei beijá-la os lábios, mas sua esquiva foi mais ligeira e eu fiquei no vácuo.

- Tudo bem Aninha? – falei tentando sorrir meio sem graça.

Ela mal me olhou no rosto. Manteve o corpo curvado para o lado do qual viera, e notei que vez por outra ela olhava de soslaio, como que para se certificar que não havia ninguém conhecido testemunhando aquele encontro patético.

- A sessão já já começa, você quer uma pipoca? Vou ali pegar. – disse eu sem dar tempo dela responder já prevendo o que aconteceria. Tenho um pouco de sexto sentido, embora seja homem.

Voltei com os dois sacos de pipoca e nem tive tempo de entregar, pois quando cheguei ela sem me olhar nos olhos, falou:

- Olha cara, acho que a gente confundiu as coisas... Tem nada a ver... Queria que você não ficasse magoado comigo... – e nesse momento o telefone dela tocou, e ela, ao olhar pro visor, não conteve um sorriso e atendeu:

- Oi! – fez uma conchinha com a mão por cima da boca, mas interrompeu o que estava a falar, me olhou e fez tchau com a mão e saiu.
Fiquei tão desnorteado que um pouco da pipoca que eu segurava caiu no chão.
Permaneci ali com cara de otário segurando os dois sacos de pipoca sem ter coragem de olhar pra trás e vê-la partir.

- A vida é dura, meu camarada. – pensei desgostoso e juntei num só saco a pipoca que não havia caído. Amassei o saco vazio com toda a força do mundo e soltei no chão.
Senti meus olhos marejarem e coloquei, não sei por qual razão, um pouquinho de pipoca na boca.
Tava salgada pra caralho.

2 comentários:

Janaína Nina disse...

Nossa Emanuel, como vc tá sentimental ultimamente. Ri demais como essa tragicomédia! Bj

Débora Oliveira disse...

Muito boa a história. Bem diferente das que costumo ler por aqui, hehe. Abs