01 Outubro, 2010

O ponto do churrasco.

Acredito eu que no primeiro momento é bom que fique bem claro que em toda minha biografia não consta absolutamente nada de extraordinário a ser dito.

Não esperem, pois, nada além de um aglomerado de palavras nesse texto que agora por desventura o leitor tem em mãos.

Minha desgraça nasceu comigo, pois fui agraciado pela natureza com um lábio leporino. Poderia até parafrasear o poema que diz algo como: sofro, desde a epigênese da infância... Lábio leporino é um corte de leste-a-oeste entre o fim da boca e o nariz! Ou melhor: de norte a sul. Mesmo depois da tal cirurgia estética, não tem cristão que faça com que o infeliz falar direito. Em alguns casos até que é possível de conseguir um bom resultado, mas no meu, particularmente, acho que na primeira cirurgia houve algum erro médico, o que me comprometeu pra sempre.

É um tanto quanto difícil articular as palavras quando se tem esse tipo de anomalia. A língua parece frouxa por dentro da boca, os dentes atrapalham... Pode até nem ter nada muito a ver, mas parece aquele ditado cretino que diz que para mal fodedor até o pau atrapalha.
A boca, no meu caso, atrapalha a fala. E olha que eu já fiz uma porrada de cirurgias.
Sofri com apelidos dolorosos durante minha vida quase toda. Hoje, no entanto, homem bem sucedido que sou, sei que, na pior das hipóteses, o máximo que podem fazer é rir de mim pelas costas.

Aprendi com o tempo a me impor. Claro que o fato de eu ter me tornado um homem rico ajudou.

Vez por outra eu ainda me surpreendo concordando com aquele papo de que dinheiro não traz felicidade. Não sou idiota a ponto de dizer isso a ninguém, mas sei lá, é uma idéia estúpida, mas, lamentavelmente, mesmo possuindo o patrimônio que consegui construir não me considero aquilo que se convencionou chamar de “homem feliz”.

Por outro lado, tenho plena consciência de que, caso fosse só mais um fudido, seria mais infeliz ainda.

Lembro da cara daqueles desgraçados naquele boteco imundo de subúrbio, onde, não sei por qual motivo afinal, fui parar na semana passada juntamente com aquelas pessoas.
Vi como as pessoas me olhavam de modo inusitado, como se eu fosse um animal exótico, mas estranhamente, ao se dirigirem a mim, jamais perdiam o indisfarçável ar submisso, talvez pelo fato de perceberem que eu não sou gentinha da laia que freqüenta aquela pocilga.
Tudo aconteceu naquela noite que ficamos reunidos até mais tarde na empresa para deliberarmos sobre um investimento novo que um dos meus sócios sugeriu fazer.
Não vale a pena aqui entrar em detalhes sobre meus negócios, mas o fato é que fiquei satisfeito com a proposta apresentada.

Ao me despedir de todos, confesso que senti um pouco de inveja daqueles que atendiam ou faziam telefones para esposas ou namoradas, comunicando que chegariam dali a pouco, dando explicações e coisa e tal. Eu iria pra casa e não teria ninguém pra conversar.
Poderia chamar uma puta, mas não era bem aquilo que eu queria naquela noite. Não tava nem a fim de foder, queria conversar somente. Aquilo me deixou um pouco abatido.
Fui até a copa tomar uma água, e cruzei com o cara da limpeza, que vinha sorrindo todo a vontade falando no celular, mas que mudou de tom quando me avistou.

- Boa noite, doutor. – Falou ele meio constrangido e cochichou no aparelho algo como “peraí, peraí” enquanto se afastava.

Voltou logo em seguida, eu já me preparava pra sair quando ele perguntou se eu precisava de alguma coisa.

Falei que não e, não sei por qual motivo, perguntei onde ele morava e ofereci carona.

Eu sei, nada disso é verossímil, mas no caminho percebi que o cara era até gente boa.

Em certo momento, ele me falou:

- Doutor, não vai me levar a mal, mas assim, se o senhor não se incomodar, posso fazer uma pergunta?

- Se você for perguntar se sou viado, vou logo dizendo que não sou!

Rimos e ele disse que não era nada daquilo, pediu desculpas e tal, depois continuou:

- Não, é por que o seguinte; vou me encontrar com umas fulanas numa cigarreira lá perto de casa, se o senhor quiser, tem uma morena lá até gostosinha...

Estupidez a minha foi ter aceitado aquele convite.

Quando estacionei o carro e fomos pra uma das mesas da tal “cigarreira” foi que eu me dei conta de que não sabia o nome do faxineiro.

- Romário. - falou.

Nome escroto, não é!? Parece que era em homenagem a um jogador de antigamente.

Dirigimo-nos a uma das mesas e o provável proprietário, que atendia as mesas enquanto uma senhora tomava conta do caixa, veio a nosso encontro. Ele viu meu carro e deve ter desconfiado minha procedência social.

Era patético aquele cara fazendo de tudo pra me agradar como se imaginasse que, me cativando, eu viraria freguês daquela espelunca!

Ele era barrigudo que dava a falsa impressão de ser mais alto do que realmente era, usava uma camisa encardida com o nome do estabelecimento: “O Ponto do Churrasco”.

Não demorou muito e chegaram duas mulheres, uma delas era a tal morena gostosinha.

Ela era até jeitosa, mas vestia um shortinho jeans, sandálias de salto alto e uma blusa que deixava a mostra o umbigo. Típico visual de putinha de periferia.

Mas ela tinha pelinhos loiros nos braços, e isso era um ponto positivo. Fiquei observando calado e imaginei que talvez fosse insensatez da minha parte estar ali, num lugar daqueles, com o faxineiro da minha empresa e aquelas duas piranhas.

Fiquei filmando a tal morena durante uns segundos. Não tinha nada a ver com as prostitutas que geralmente eu comia. Usava um perfume enjoado misturado com mau cheiro de cigarro vagabundo, não tinha modos, ria alto, coçava a cabeça... mas vá lá, eu já tava ali naquela merda mesmo, fazer o que? Pedir pra cagar e sair? Porra nenhuma! Fiquei pra ver no que ia dar.
Achei que talvez me envolver com uma mulher que não fosse puta profissional seria interessante pra minha auto-estima.

Mas, em determinado momento, tive a impressão que ela não tinha se agradado de minha pessoa. Talvez seja só impressão minha - pensei. Já era hora de eu abandonar esse complexo de achar que todo mundo que me olha é por que tá me achando esquisito. Esse meu problema nem é tão raro assim! Me refiro ao problema nos lábios.

Pedi uma dose de whisky – só tinha Teacher – e fiquei bebendo. Planejei tomar só duas ou três. O suficiente pra ficar mais extrovertido.

Ela me olhava calada enquanto Romário se beijava com a outra.
Fiquei meio enojado, e comecei a beber mais ligeiro pra criar coragem de chegar na morena.
Finalmente, num momento em que ela foi ao banheiro, fiquei olhando seu rabão abençoado e notei que eu havia bebido mais do que planejara. Quando ela voltava, me levantei sem nem saber direito o que diria, interceptei sua passagem enquanto articulava as primeiras palavras que nem tive tempo de pronunciar, pois ela me repeliu com indisfarçável asco!

Prostituta! Pensei. Uma mulher desprezível que nem essa, me tratar dessa maneira é foda!

Ao notar a cena, Romário se levantou e a chamou num canto. Vi que ele falava com ela com certo ar intimidador. Gesticulava com as mãos o tempo todo, e em certo momento, já menos exaltado, se calou por alguns segundos como se esperasse alguma resposta. Falou mais não sei o que, agora já mais tranqüilo, ela concordou com a cabeça e vieram os dois pra mesa.
Ela se sentou e arrastou a cadeira pra perto de mim e falou no meu ouvido enquanto estendia a mão:

- Meu nome é Barbara.

Eu deveria ter ido embora, mas apertei a mão dela e disse:

- Elizaudo, prazer.

Fiquei calado me achando um homenzinho desse tamainho.
Romário sugeriu irmos para outro lugar. Entramos no meu carro e no meio do caminho, a tal Barbara ficou alisando minha perna enquanto eu dirigia.

- Dá pra ligar o sozinho aí, patrão? – pediu Romário.

Liguei o rádio e tava rolando “As curvas da estrada de Santos” do Rei.
Gosto dessa música. Talvez tenha sido por isso que as vozes daquela gente falando sobre suas vidas medíocres tenha me incomodado tanto. Eu tava me concentrando na música e aquele burburinho de vozes começou a me deixar irritado.

Seguíamos por uma BR quando parei o carro no acostamento e mandei todo mundo descer:

- O quê?

- Desce todo mundo!

- Qu’é isso, patrão?! – falou Romário.

- Patrão um caralho! Vai, porra! Sai todo mundo, vai, vai!

Claro que minhas palavras faladas não são tão nítidas como as escritas, por isso não sei se os segundos em que eles permaneceram sem reação foi por não entenderem o que eu disse, ou por se recusarem a acreditar que aquilo tava acontecendo.

Barbara ainda tentou falar alguma coisa que eu interrompi reafirmando a ordem anterior. Senti uma pontinha de arrependimento, pois ela já tava quase pegando no meu pau antes disso tudo.

Falei, me dirigindo a Romário, assim que todos saíram do carro:

- Amanhã você se dirija diretamente ao setor pessoal pra dar baixa na tua carteira, fui claro?!

Ele nem respondeu. Tava meio escuro e não dava pra ver direito, mas tive a impressão que ele ficou com cara de choro.

Saí cantando pneu com toda a porra! Aumentei o volume do som do carro e rumei pra casa apressado, cantarolando e batucando no volante.

“Maaasss se o amor que eu perdi, eu novamente encontrarrrrrr”

Quando cheguei em casa chamei uma puta pelo telefone.

Romário nunca mais apareceu na empresa.

1 comentários:

Camila ataliba disse...

Coitado do Romario...