16 Setembro, 2010

Versos de putaria


Apolinaire em uma de suas obras – tenho quase certeza que foi n’A mulher sentada – descreveu um de seus personagens como Uma gota de sangue na lâmina de uma espada.
Invejo a criatividade do escritor francês, mas pela minha indisfarçável falta de talento literário, contento-me em descrever peremptoriamente Talita como um caveróide.
Sim, ela era bem magrinha, mas sua magreza dissimulava uma mulher fogosíssima, além de uma bundinha até bem fornida, mas somente perceptível quando ela tirava a roupa.
Nos conhecemos meio que por acidente. Fiz não sei que comentário a respeito de não sei que música que estava sendo tocada no bar naquela noite, e ela, da mesa vizinha me perguntou a queima-roupa:

- E o que é música para você?
- E isso é um conceito subjetivo, por acaso? – respondi.
- Depende...

Não lembro bem como se desenrolou a discussão. Só sei que, passados alguns minutos, estávamos na mesma mesa.
Passadas algumas horas, na mesma cama.
Talita era uma mulher sedutora e interessante.
Lembro nitidamente o dia – naquele tempo eu ainda teimava em tentar escrever poemas – quando lhe mostrei um pseudo-poema de minha autoria. Na verdade era um arremedo de “vanguarda européia-poema-pau-Brasil-poesia-marginal-da-década-de-setenta” ou algo do tipo. Em síntese: uma bosta!
Eu gostava de escrever aquelas coisas, tentava formular teorias para convencer os outros de que a não-poesia é também poética e coisas do tipo! Na verdade, fazia uso de um paupérrimo jogo de palavras para que, no fundo no fundo, as pessoas acabassem por se convencer que eu, apesar de não ter nenhum talento literário, era na verdade um poeta.
Hoje até me ofendo quando se referem a mim com tal epíteto: poeta! Percebo a ironia daqueles que me dão tal alcunha.
Pois Talita, no dia em que mostrei o meu pseudo-poema, discorreu durante horas a respeito da teoria da literatura ou, sobre alguma coisa do gênero. Acabou por fim me convencendo a mudar meus hábitos de leitura.
Me apresentou a poesia de Pietro Aretino entre outras coisas.
A partir de então mudei meu discurso, e passei a me dedicar em fazer sonetos escrotos, versos de putaria, poemas eróticos, poesias fesceninas enfim.
O problema é que nunca levei muito jeito pra isso, essa é a dura realidade.
Com o tempo, Talita deixou de dar atenção às coisas que eu escrevia. Mal intencionava mostrar-lhe algo que tinha escrito e ela já desconversava, ou simplesmente me jogava na cama e me comia!
Não sei por que, mas tive a impressão que, por algum motivo, ela tinha se cansado das longas conversas chatas sobre literatura que habitualmente tínhamos até então.
Comumente a flagrava com olhar entediado em minha direção, como que a dizer: Caralho, meu deus, não tem jeito!
Passamos a nos entender somente na hora da foda, mas com o passar do tempo, nem nisso nos entendíamos mais! As pessoas cansam umas da outras. C’est la vie.
Em certa ocasião, acho que na fase em que ela tava meio triste por causa da morte de seu pequinês, escrevi para ela os seguintes versos:

Por que choras, senhorita? Não chores.
Para que te animes, que te assanhes
Deixe que eu teus seios abocanhe,
Que te chupe toda, boca, vulva, clitóris.

Se assim quiseres, me acompanhe
E te acometerão coisas melhores
O mundo se encherá todo de cores
Assim que meus carinhos você ganhe.

Por que não deixas, querida consorte,
Qu’eu decrete de tua tristeza a morte,
Para que cesse este doloroso pranto?

Tua alma, outrora condoída,
Será, imediatamente, após fodida
Regozijada inteira de encanto.

Intitulei o poema de Soneto para uma moça triste.
Lembro que quando entreguei a Talita, ela leu, ainda com os olhos meios marejados, beijou-me na testa e disse que precisava ir.
Apertou minhas mãos com firmeza enquanto olhava com ternura bem dentro dos meus olhos, disse “Se cuida” e saiu andando rebolando sua bundinha magra.
Não entendi muito bem o que significava aquele mis en scene todo. Mas até então eu não sabia que aquela seria a última vez que nos víamos.

3 comentários:

Caceres disse...

"saiu andando e rebolando sua bundinha magra". Será Talita um pseudônimo do grande filósofo Valadares?

Caceres disse...

Ei, num marca fazer o título só pra chamar o buscador do google não, viu rapá.

Emanuel Grilo disse...

Pois é Daniel Caceres, tenho me divertido muito com essa ferramenta que revela que termos de pesquisa no google trazem os leitores até aqui.
Acho que para quase a totalidade deles esse blog é uma decepção, pois os termos mais usados são coisas tipo: Versos de putaria (disso tem um pouco por aqui), mulheres gozando, trepadas violentas e coisas do gênero.
Pra ver o tipo de gente que lê essas aberrações que eu escrevo. rsrs