04 Agosto, 2010

DIA DE FOLGA

Eu não tava nem um pouco a fim de confusão pro meu lado, pois não sou maluco e não queria puxar cadeia de novo. Mas quando se sai da colônia penal, é meio difícil arranjar emprego! Se não fosse Copalino eu tinha me fodido.
Era gente boa aquele figura. Foi preso porque matou um cara porque o cara mereceu - como ele mesmo dizia. Quando cheguei no presídio, ele era o xerife da cela e quis logo saber por que eu tinha ido parar ali.

- Um-cinco-sete – expliquei.

Um tempo depois outro preso me falou que lá na cela todo mundo cumpria pena por um-sete-cinco ou um-cinco-cinco. Só Copalino é que cumpria pelo cento-e-vinte-e-um e isso dava mais moral pra ele, porque, teoricamente, entre nós, ele era o mais perigoso.
Copalino terminou de cumprir pena antes de mim e disse que quando eu voltasse pra rua o procurasse. Quando consegui a progressão pro semi-aberto, saí de lá sem saber muito bem pra onde ir.
Fui procurar minha irmã, mas ela tinha se mudado não sei pra onde com o marido e os filhos.
Fiquei perambulando por aí sem saber o que fazer, acabei indo procurar Copalino no endereço que outrora ele havia me informado. Era numa oficina no bairro de Felipe Camarão.
Ele me disse que tava no ramo do comércio, automóveis pra ser mais exato, e que precisava de um cara que nem eu pra ajudá-lo a tocar os negócios.
Fiquei feliz com aquilo.
Ele me arranjou um trabalho que era só levar umas coisas de um lugar pra outro. Eu fazia questão de não saber que tipo de coisa era.
No primeiro dia de trabalho fui fazer uma entrega na Zona Norte, e quando estava chegando ao local combinado, Copalino me ligou e me mandou esperá-lo.
Pouco tempo depois ele chegou, me entregou uma grana e convidou pra ir a um bar chamado Gaiolão de Ouro, onde tava rolando uma seresta.
Achei que deveria ser franco com ele, e durante o caminho falei que não pretendia trabalhar naquele negócio por muito tempo:

- Não quero cair de novo... O sistema carcerário não é uma Disneylândia, meu velho!

Ele ficou meio contrariado e disse que depois conversaríamos sobre o assunto.
Paramos em frente ao bar e ele falava com não sei quem ao celular de um modo que eu jamais tinha visto antes. Era gentil até. Imaginei que muito provavelmente se tratava de uma garota.
Perguntou por fim se ela tinha trazido “a amiga”, e diante de uma provável resposta positiva falou:

- Tô com um amigo aqui pra fazer parêia com ela!

Desligou o telefone sorrindo e disse “vamos!”.
Então fomos.
Entramos e encontramos as duas fulanas dentro do bar. Dava pra sentir o mormaço assim que se cruzava o portão de entrada. Levei baculejo dos seguranças enquanto Copalino era cumprimentado por eles. Tava uma zoada do caralho lá dentro; um cara cantava e tocava teclado enquanto uma multidão dançava e bebia. Um inferno!
Ficamos ali durante algumas cervejas.
E enquanto ele falava no ouvido da fulaninha lá, bebia, sorria e dançava, eu nem me dava ao trabalho de puxar conversa com a outra, tal “amiga” do esquema dele.
Ela era até bonitinha. Percebi, quando ela sorriu, que lhe faltava um dos dentes da frente, mas pra mim tava bom. Ela me olhava vez por outra como se esperasse alguma atitude da minha parte.

- Tua hora vai chegar, morena! – pensei comigo mesmo e fiquei rindo sozinho. Ela também riu, e foi aí que vi que tava faltando um dente. Pensei comigo mesmo que devesse ser crime gente banguela sorrir em público. Achei engraçado esse meu pensamento e ri mais ainda enquanto olhava a boca dela também a sorrir toda desfalcada. Acho que no fim das contas ela me achou um cara simpático.
Copalino pagou a despesa sozinho e chamou todo mundo pra dentro do carro. Fomos pra casa dele que ficava nos fundos de um galpão onde funcionava uma oficina. Eu ia dirigindo com a banguela do meu lado, enquanto Copalino tava na maior putaria com a outra no banco de trás.
Foram pra dentro do quarto assim que chegamos, me deixando a sós com a banguela. Peguei-a pela cintura, e enquanto beijava o pescoço dela, ela afastou um pouquinho o busto do meu corpo, mas ainda grudada pela cintura, perguntou meu nome.

- Zezão – falei e continuei o que estava fazendo.

O pescoço dela tinha cheiro bom de perfume.
Tirei a calça e a camisa, mas quando fui tirar a roupa dela, ela se afastou de novo, me estendeu a mão direita e falou:

- Josina, prazer.

Apertei a mão dela e tirei sua blusa.
Não sei se foi impressão minha, mas achei que ela não tava muito a fim naquela noite. No outro dia pela manhã, Copalino falava ao telefone meio irritado não sei com quem. Saiu do quarto só de cueca, me chamou dizendo que iríamos ali resolver uma parada e expulsou as meninas.
Quando Josina terminou de se vestir, pedi que me desse o número de seu telefone pra que marcássemos de nos encontrar novamente. Ela já ia falar o número, mas eu interrompi e pedi que anotasse num papel. Ela anotou, me entregou o papelzinho e eu guardei no bolso da calça.
Fui acompanhá-las até a porta, e quando eu já ia entrando de volta, Josina me olhou e disse:

- Hoje à noite vou tá de folga.

Achei-a tão graciosa dizendo aquilo. Falei que ligaria no fim da tarde pra combinar alguma coisa.

- Lá pras cinco, cinco e meia eu ligo. – e entrei.

Copalino tava meio tenso. Mandou eu ir dirigindo pro outro lado do rio. Atravessamos a ponte num pau da porra. Só tive que aliviar no pé quando passamos por uma blitz.
Me mandou parar em frente a um escritório de advocacia no Quilômetro-Seis. Ele entrou e eu fiquei esperando no carro por um tempão. Quando ele voltou ouvi quando mandou ao telefone que a pessoa não abrisse a boca enquanto o advogado não chegasse.
Alguma coisa tinha dado merda!
Rodamos por aí o dia todo, mas no fim da tarde fomos pra oficina, onde tinham uns caras desmontando uma L-200.
O gosto de Josina não largava minha boca nem a pau. Me dei conta que tinha passado o dia todo pensando nela. Eu que achava que era imune a esse tipo de coisa. Sempre ouvi dizer que a cadeia brutaliza as pessoas, então como é que podia eu ficar daquele jeito, parecendo um veadinho apaixonado?
Pedi emprestado o celular de Copalino e liguei pra Josina.
Chamou, chamou e ninguém atendeu. Fiquei meio puto.
Liguei de novo e nada.
Devolvi o telefone e fui ao banheiro apalpando o papel no qual Josina tinha anotado seu número.
Fiquei uns instantes refletindo, enquanto olhava o jato de urina cair na privada, que talvez fosse legal tentar mais uma vez ligar pra ela. Confesso que fiquei meio triste. Se ela não foi com a minha cara, por que disse aquilo na hora que nos despedimos? Joguei o papel no vaso sanitário e dei descarga.
Foda-se!
Saí do banheiro, e vi Copalino caminhando em minha direção com ar de riso olhando o visor do celular.

- Tu tava ligando pras puta, era? Tu não ouviu ela dizer que tava de folga hoje? Nem adianta ligar que ela não faz programa dia de segunda-feira.

Não lembro onde ouvi certa vez alguém dizendo que a paixão é o amor que ainda não teve tempo de dar errado. Não sei por que lembrei disso naquela hora.
Nó na garganta do caralho.
Tive meu pensamento interrompido pelo barulho da sirene da polícia.
Os caras aqui do lado de dentro se alvoroçaram, e escutei quando Copalino falou pra alguém:

- Eu mandei aquele cuzão só abrir a boca quando o advogado chegasse!

Aproximou-se de mim e me entregou um trêsoitão. Foi justamente nessa hora que os policiais arrombaram a porta mandando todo mundo deitar no chão.
Fiquei em dúvida se atirava ou se obedecia. Me deu uma vontade danada de chorar.

2 comentários:

O símbolo disse...

hahaaaaahah

Foderam tua cartola de novo, sem mulher...sem puta, sem Josina, sem banguela e numa tremenda sinuca!

Meu chapão, não banca o modesto escroto, teus textos são super fodas, cara!

Amor "pós grades" é lancinante mesmo, coisa pra trouxa, como sempre, mas deve ser avassalador!

Show!

Caceres disse...

A gente se mete em cada roubada nessa vida...