Tava contando as horas naquela sexta pra acabar o expediente. Pachorrento, arrastava o tempo, olhando de vez em quando pro relógio.
Trabalho de merda naquela repartição! Foi um acidente eu ter me tornado funcionário público, mas até mesmo o próprio Kafka tinha sido funcionário público... Isso me serve de consolo, pois sou poeta e sei que um dia ganharei muita grana com minha obra. Mas por hora, não mostro meus poemas a ninguém.
Na verdade, um tempo atrás, tinha a mania de recitá-los por contrabando, entre um e outro poema de algum escritor consagrado, e ficava a observar a reação dos interlocutores. Geralmente eram bem aceitos, por isso sei que sou talentoso.
Uma das poucas pessoas a quem mostrei parte de minha obra assumindo a autoria foi Valéria. Quando nos envolvemos e eu revelei meu talento, ela insistiu tanto, mas tanto pra ver um de meus sonetos, que acabei cedendo. Lembro que ela leu, releu, sorriu e me devolveu o papel. Perguntei o que ela tinha achado e ela me beijou. Fiquei feliz com aquela reação tão espontânea.
Sei que muita gente se faz passar por escritor, poeta e coisa tal, só pra enganar as mulheres. Elas geralmente pensam que nós somos sensíveis e por isso acabam se interessando. Era assim com o salafrário do Licurgo.
Naquele tempo eu o considerava meu amigo. Discutíamos literatura, bebíamos vinho, fazíamos analises das obras um do outro. Mas me irritava o fato dele nunca se conter diante de uma vagina! Era só uma mulher dar mole, que qualquer discussão por mais empolgante que fosse jazia imediatamente. Filho da puta aquele cara. Eu ficava puto com a mania dele de falar alto nas mesas dos bares, principalmente quando tinha alguma garota por perto. Eu notava que nessas circunstâncias, vez por outra ele olhava de soslaio pra mesa do alvo na intenção de sondar se o nosso papo tava ou não interessando. Geralmente se aproximava das garotas conversando sobre literatura, Pablo Neruda, Camus... mais tarde se revelava escritor e me apresentava como um “poeta talentosíssimo”. Aquilo me irritava copiosamente! Eu me sentia como um personagem de Rubem Fonseca.
Tinha vontade de meter bala em todo mundo.
Comigo as coisas nunca funcionaram daquele jeito. Nunca usei meu status pra seduzir nehuma fulana sequer. Acho isso antiético. Até mesmo Valéria, de quem falei agora pouco, não se interessou por mim por causa do meu talento. Na verdade nem sei bem por qual motivo nos envolvemos. Não tínhamos nada a ver um com o outro.
Mantivemos uma relação durante uns meses, e foi durante esse período que me afastei de Licurgo.
Depois de um tempo notei que o interesse de Valéria por literatura aumentou visivelmente. Não sei se isso teve alguma relação com o fato dela se tornar ciumenta do dia pra noite, passando a cismar com coisas que não tinham nada a ver.
Fiquei meio assim, no dia em que ela veio me cobrar satisfação alegando que me viram não sei aonde, não sei com quem, fazendo sabe-se lá o que.
- Eu já tô sabendo de tudo! Nem adianta mentir!
Expliquei que aquilo era conversa fiada e quis saber a fonte, mas ela não revelou nem a pau!
No fundo no fundo, eu tinha consciência que nossa relação ia dar no que deu! Ela tava agindo igualzinho Eugênia Câmara quando passou a suspeitar das traições de Castro Alves. Sabia que pra me humilhar ela seguiria o mesmo caminho e daria pra um e outro por aí só pra me magoar.
Vou poupar a paciência do leitor de relatos maçantes e sem relevância que não contribuiriam em nada pra enriquecer essas linhas.
O fato é que certo dia, flagrei Valéria olhando pra tela de seu computador a sorrir, e fui olhar que porra era aquilo. Antes de ela minimizar a janela, notei que era um poema que Licurgo havia enviado, e foi justamente por isso que começamos a discutir.
Ela me jogou na cara aquela história infundada de que eu estava não sei quando, com não sei quem, e não adiantou eu tentar me justificar.
Perguntei, por fim, se ela tinha dado pra Licurgo e ela, debochada, falou bem alto que tinha dado sim, que tinha chupado horrores e tinha sido maravilhoso.
Prostituta!
Devo confessar que tudo daquilo me doeu muito, mas achei mais foda ainda ela acrescentar, ao me ver moralmente destruído, que além de tudo Licurgo era um poeta mais talentoso que eu.
Naquela hora, fiquei me sentindo o próprio Dom Casmurro, com a diferença de que, no meu caso, eu tinha certeza que era corno.
Trabalho de merda naquela repartição! Foi um acidente eu ter me tornado funcionário público, mas até mesmo o próprio Kafka tinha sido funcionário público... Isso me serve de consolo, pois sou poeta e sei que um dia ganharei muita grana com minha obra. Mas por hora, não mostro meus poemas a ninguém.
Na verdade, um tempo atrás, tinha a mania de recitá-los por contrabando, entre um e outro poema de algum escritor consagrado, e ficava a observar a reação dos interlocutores. Geralmente eram bem aceitos, por isso sei que sou talentoso.
Uma das poucas pessoas a quem mostrei parte de minha obra assumindo a autoria foi Valéria. Quando nos envolvemos e eu revelei meu talento, ela insistiu tanto, mas tanto pra ver um de meus sonetos, que acabei cedendo. Lembro que ela leu, releu, sorriu e me devolveu o papel. Perguntei o que ela tinha achado e ela me beijou. Fiquei feliz com aquela reação tão espontânea.
Sei que muita gente se faz passar por escritor, poeta e coisa tal, só pra enganar as mulheres. Elas geralmente pensam que nós somos sensíveis e por isso acabam se interessando. Era assim com o salafrário do Licurgo.
Naquele tempo eu o considerava meu amigo. Discutíamos literatura, bebíamos vinho, fazíamos analises das obras um do outro. Mas me irritava o fato dele nunca se conter diante de uma vagina! Era só uma mulher dar mole, que qualquer discussão por mais empolgante que fosse jazia imediatamente. Filho da puta aquele cara. Eu ficava puto com a mania dele de falar alto nas mesas dos bares, principalmente quando tinha alguma garota por perto. Eu notava que nessas circunstâncias, vez por outra ele olhava de soslaio pra mesa do alvo na intenção de sondar se o nosso papo tava ou não interessando. Geralmente se aproximava das garotas conversando sobre literatura, Pablo Neruda, Camus... mais tarde se revelava escritor e me apresentava como um “poeta talentosíssimo”. Aquilo me irritava copiosamente! Eu me sentia como um personagem de Rubem Fonseca.
Tinha vontade de meter bala em todo mundo.
Comigo as coisas nunca funcionaram daquele jeito. Nunca usei meu status pra seduzir nehuma fulana sequer. Acho isso antiético. Até mesmo Valéria, de quem falei agora pouco, não se interessou por mim por causa do meu talento. Na verdade nem sei bem por qual motivo nos envolvemos. Não tínhamos nada a ver um com o outro.
Mantivemos uma relação durante uns meses, e foi durante esse período que me afastei de Licurgo.
Depois de um tempo notei que o interesse de Valéria por literatura aumentou visivelmente. Não sei se isso teve alguma relação com o fato dela se tornar ciumenta do dia pra noite, passando a cismar com coisas que não tinham nada a ver.
Fiquei meio assim, no dia em que ela veio me cobrar satisfação alegando que me viram não sei aonde, não sei com quem, fazendo sabe-se lá o que.
- Eu já tô sabendo de tudo! Nem adianta mentir!
Expliquei que aquilo era conversa fiada e quis saber a fonte, mas ela não revelou nem a pau!
No fundo no fundo, eu tinha consciência que nossa relação ia dar no que deu! Ela tava agindo igualzinho Eugênia Câmara quando passou a suspeitar das traições de Castro Alves. Sabia que pra me humilhar ela seguiria o mesmo caminho e daria pra um e outro por aí só pra me magoar.
Vou poupar a paciência do leitor de relatos maçantes e sem relevância que não contribuiriam em nada pra enriquecer essas linhas.
O fato é que certo dia, flagrei Valéria olhando pra tela de seu computador a sorrir, e fui olhar que porra era aquilo. Antes de ela minimizar a janela, notei que era um poema que Licurgo havia enviado, e foi justamente por isso que começamos a discutir.
Ela me jogou na cara aquela história infundada de que eu estava não sei quando, com não sei quem, e não adiantou eu tentar me justificar.
Perguntei, por fim, se ela tinha dado pra Licurgo e ela, debochada, falou bem alto que tinha dado sim, que tinha chupado horrores e tinha sido maravilhoso.
Prostituta!
Devo confessar que tudo daquilo me doeu muito, mas achei mais foda ainda ela acrescentar, ao me ver moralmente destruído, que além de tudo Licurgo era um poeta mais talentoso que eu.
Naquela hora, fiquei me sentindo o próprio Dom Casmurro, com a diferença de que, no meu caso, eu tinha certeza que era corno.


1 comentários:
Porra, muito bom os seus contos!
Parabéns Grilo, você detona!!!
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