30 Julho, 2010

Um cara romântico.

Eu tava meio puto, porque o pessoal lá da rua tava dizendo que tinha um cara freqüentando minha casa enquanto eu trabalhava.
Aceitei a transferência de turno pra noite só por causa do adicional. Em compensação, sempre que eu chegava em casa pela manhã, não tinha mais energia pra nada. Fazia o maior tempão que eu não dava uma bem dada com minha mulher, e era provável mesmo que ela tivesse arranjado alguém pra fazer o dever de casa no meu lugar.
Planejei armar um flagrante. Só não sabia muito bem o que deveria fazer caso minhas suspeitas fossem confirmadas.
Separar de Wanda ia ser foda! Ela lavava minha roupa, fazia a comida e tudo o mais. Embora desconfiasse está levando chifre, ainda considerava ela uma boa esposa. Sou um cara romântico, sabe?!
Cheguei mesmo a pensar que, caso ela estivesse mesmo dando pra outro, seria por minha culpa.
Eu trabalhava de vigilante na guarita de uma fábrica de agulhas.
Era um trabalho cansativo, apesar de que quase nunca tinha algo pra fazer. Mas o cara tinha que ficar ligado, porque a bandidagem não brinca em serviço.
Combinei com o cara do outro turno pra me render naquela noite. Me cobrou uma grana, o salafrário.
Saí de casa todo fardado, fingindo ir trabalhar, fui a um boteco ali por perto e tomei umas doses de conhaque.
Depois de duas, duas horas e meia, rumei pra casa já com sangue quente e, ao entrar, tomando cuidado pra não fazer barulho, escutei, assim que cruzei o primeiro vão, uma gemedeira abafada.
Agora já era: eu teria que tomar alguma providência.
Fiquei uns instantes brechando aquela putaria e confesso que quase fiquei de pau duro. Senti vergonha por causa disso.
Entrei no quarto de supetão, meio sem saber o que fazer e a cena foi o clichê de sempre: eles nus na cama, se cobrindo ligeiro com o lençol, enquanto eu, injuriado, sacava minha arma.

- Pelo amor de deus, não atire – gritou o cara.

Confesso que na hora só me preocupei em dar um jeito da vizinhança não ouvir os gritos. Todo mundo ia ficar sabendo daquele vexame. Como é que ia ficar minha reputação com a rapaziada?
Eu apontava a arma, mas agia como um autômato. Parecia que nem era comigo aquele negócio. Nem sabia direito o que tava rolando.

- Cala a boca porra! – Sussurrei.

Wanda atônita assistia tudo calada. Ela cobria os seios com o lençol, mas um pedacinho do mamilo dela ficou a mostra. Era bem rosinha.

- Caralho, meu irmão, por favor... – gritava o cara afoito.

Depois disso não consegui entender mais nada do que ele dizia. Tenho uma vaga lembrança de quando Wanda tentou me agarrar, não sei se pra me bater ou pra pedir desculpas. Só sei que nessa hora eu dei uma coronhada nela. Foi aí que o pilantra tentou pular a janela, e nem se preocupou em vestir as roupas.
Já pensou o vexame; um cara saindo nu da minha casa correndo pela rua?!
Comeu minha mulher, queria se safar e ainda ia me deixar desmoralizado? Pensa que o mundo é uma colônia de férias, é?
Atirei na hora.
Quando fui levado pra delegacia, ouvi um policial dizer pro outro:

- Duplo homicídio triplamente qualificado... não sei quantos tiros na cabeça das vítima – o cara não sabia conjugar verbo no plural, eu acho.

- Por que tu fez uma ruindade dessa?

- Legítima defesa.

- Meio mundo de tiro? Legitima defesa? Você partiu o crânio das duas vítimas!


- E ela partiu meu coração. – Finalizei.
Sou um cara romântico.

3 comentários:

Prozac Bar disse...

Ei galado, do caralho este texto aí! Mas lembre-se malandro... o mundo realmente não é uma colônia de férias e a internet não é seu diário pessoal!

Emanuel Grilo disse...

kkkk se lascar.

Anônimo disse...

Rapaz, você gosta de personagem valente, hein...