26 Maio, 2010

Violência urbana


Quando sugeri aos caras que fizéssemos aquilo, fui ridicularizado, mas depois de algumas cervejas todo mundo criou coragem e partimos pra porrada, sem mais nem menos, com aqueles jiujiteiros filhos da puta.
Tudo bem que os caras não tinham nem feito nada, mas não sei que porre doido foi aquele que suscitou, em pleno colóquio na mesa do bar, especularmos a possibilidade de espancá-los.
Talvez o plano tenha sido ensejado pela indignação que causa a quem assiste ou toma conhecimento das covardias que esses caras fazem nas festas por aí, batendo nos outros sem mais nem menos, ou apenas pela maneira como eles chegam nos lugares, cheios de marra, olhando com desprezo pra caras franzinos que nem eu.

- Caralho, falou Ewerton exaltado, já pensou?, amanhã vai sair nos jornais: “Três raquíticos espancam jiujiteiros em bar”.

Caí na risada, mas tive que me conter quando avistei o semblante sério de Eduardo.

- Raquitico um caralho! Falou irado, levantou-se imediatamente e saiu andando ligeiro.

A pressa dele nesse momento, na verdade, se dava pela vontade incontrolável que sentiu de dar uma mijada, mas como a mesa dos caras de quem falávamos ficava no caminho pro banheiro, pensamos, Ewerton e eu, que o maluco ia mesmo pra cima dos caras, e nos adiantamos, Ewerton com uma garrafa de cerveja, eu com uma cadeira e caímos de pau em cima dos fulanos.
Como pegamos os caras desprevenidos, nem tiveram tempo de reagir. E Eduardo, vendo aquela cena, mijou nas calças, não sabemos se por não ter tido tempo de chegar ao banheiro ou se por medo. Mas o fato é que ele também veio nos ajudar a terminar a sessão de espancamento, apesar de todo mijado.
No dia seguinte, assistimos os jornais locais noticiarem o fato, especulando quem, por ventura, seria o autor de tal delito.
Ficamos sabendo que os caras eram filhos de gente influente, da classe média da cidade, e que eram membros da temida academia do Senhor ろくでなし.
No primeiro momento alguns jornalistas chegaram a imaginar que a agressão fosse motivada pela rivalidade entre academias, mas ao assistirem as imagens das câmeras de segurança do bar, mudaram a tese, pois perceberam que nenhum dos agressores tinha porte físico de quem freqüenta tais estabelecimentos.
As imagens das câmeras de segurança passaram diversas vezes nos programas policiais, naqueles em que o apresentador, geralmente um gordo nojento, fica falando sob um fundo musical tenso, - DE NOVO NA TELA, ou algo do tipo.
Lembro que Ewerton ficou puto da vida quando um jornalista desses comentou, enquanto passava sua imagem em slow motion segurando a garrafa e pegando as vítimas pelas costas:

- Olha lá, que baixinho ousado!

Aquele ato inconseqüente nos gerou fama, principalmente na internet. As imagens no youtube foram acessadas por milhares de pessoas que expressavam apoio ou repúdio. Mas depois que a polícia conseguiu nos identificar e fez nossos retratos falados, ficamos deveras preocupados, não pela pena que poderíamos sofrer por havermos cometido o crime de lesão corporal grave contra os playboys, mas sim pela provável retaliação que sofreríamos pelos amigos dos mesmos.
Para nossa sorte, fomos contatados pelos caras de uma academia adversária, que nos ofereceu proteção, desde que passássemos a treinar lá.
Aceitamos o convite, mas no primeiro dia, fiquei indignado em saber que a academia oferecia aulas de boxe para mulheres.

- Isto é um absurdo! Exclamei. O legal em assistir luta entre mulheres é justamente a espontaneidade dos puxões de cabelo, mordidas e arranhões! Se vocês ensinarem boxe pra essas meninas, quando elas brigarem entre si, não vai ter graça nenhuma! O boxe feminino – filosofei – é o coveiro do charque das lutas entre mulheres!

Sugeri, para que a academia não perdesse as alunas, que passasse a ministrar aulas de corte e costura, culinária e economia doméstica. Injustificadamente fui taxado de machista por algumas das lutadoras, que quiseram inclusive partir pra porrada comigo.
Após esse breve desentendimento foi iniciada a aula, e graças ao respeito que adquirimos por termos protagonizado o delito narrado lá em cima, sugerimos que outro método fosse adotado naquele dia.
Levamos todo mundo pra rua, onde trocaríamos porrada, dois por vez; um lance meio clube da luta.
Já de cara Eduardo mandou que todos eles esquecessem a técnica:

- Um cara de academia que nem vocês, quando enfrenta um como nós, que conhecemos as ruas, geralmente se fode!

Acontece que a teoria acima exposta não funcionou na prática, e nós, desprovidos de garrafas e cadeiras, sempre no primeiro round, ao enfrentar um jiujiteiro fomos nocauteados.
No fim da aula o dono da academia falou que havia reconsiderado aquela proposta de sermos protegidos e coisa e tal. Por esse motivo decidimos nos entregar à polícia no dia seguinte, mas ao chegarmos na delegacia e confessarmos o crime, fomos ridicularizados pelos agentes, que imediatamente nos colocaram pra fora.

- Uns raquíticos desses querendo dizer que espancaram os caras da academia do Senhor ろくでなし! Falou um deles.

Saimos cabisbaixos, e ainda bem que nenhum dos policiais ouviu quando Eduardo falou irritado:

- Raquítico um caralho!

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